Jomar diz que ODF é o caminho para garantir a transmissão de conhecimentos
Quem tenta abrir arquivos antigos, de editores como o Wordstar ou o Carta Certa, já deve ter lidado com a dificuldade de ler documentos antigos. Para que esse problema não se repita no futuro, o Open Document Format (ODF) vem ganhando espaço entre os governos como o formato escolhido para elaboração de seus documentos. Hoje, mais de 17 países já adotaram o padrão ODF, incluindo o Brasil. A importância de uma linguagem universal para os arquivos eletrônicos foi discutida por Jomar Silva, diretor da ODF Aliance Latino América e coordenador do grupo de trabalho na ABNT responsável pela adoção do ODF como norma brasileira , no último dia 1º, no auditório do Complexo Central de Tecnologia, em Brasília. Na oportunidade, foi agendada esta entrevista, concedida por e-mail.
Portal Vitec - Uma das preocupações da proposta de uma linguagem universal que permita lermos nossos arquivos de hoje no futuro é a transmissão de conhecimento entre gerações. No decorrer da história, que prejuízos a humanidade teve por não ter essa preocupação?
Jomar Silva - Acho que a lição mais importante sobre formato de armazenamento de informações vem da civilização egípcia. No ano 300 DC morreu o último egípcio que sabia ler os hieróglifos e desta data até 1822, quando os hieróglifos foram desvendados, a humanidade se perguntava como eles viviam, se organizavam, como haviam construído tudo aquilo e por que gostavam tanto de fazer desenhos em suas paredes.
Um outro acontecimento histórico relevante foi o incêndio na Biblioteca de Alexandria, que queimou documentos armazenados e coletados por quase mil anos pelo império romano. A perda destes documentos impactou as ciências em geral, pois lá perdemos conhecimentos em diversas áreas como medicina, matemática e filosofia. Os especialistas no acervo da Biblioteca de Alexandria estimam que teríamos avanços tecnológicos incalculáveis hoje se a humanidade não tivesse que ter descoberto novamente tudo o que o fogo queimou.
Infelizmente não precisamos voltar tanto tempo assim na história para ver os problemas que a falta de um formato aberto para documentos nos trouxeram. Basta voltarmos 10 ou 15 anos e tentar abrir qualquer documento eletrônico gerado por aplicativos que não existem atualmente, como o WordStar ou o Carta Certa. Pior que isso é imaginar que estas aplicações foram utilizadas em governos e portanto devem existir milhares de documentos oficiais perdidos, com informações importantes sobre nosso passado recente trancadas em documentos eletrônicos armazenados em formatos proprietários.
Portal - Quais os benefícios que o padrão ODF oferece para que ele seja amplamente adotado?
Jomar - O maior deles é que o ODF é um padrão aberto, desenvolvido por uma entidade internacional por meio de um processo amplo e transparente, que tem sua implementação livre de royalties, sua especificação é facilmente encontrada na internet e não existe nenhuma limitação quanto a sua reutilização. Além disso, existem atualmente mais de 50 aplicações que manipulam documentos ODF, de suítes de escritório a sistemas de gestão de documentos, de software livre a software proprietário, garantindo assim a verdadeira liberdade de escolha ao usuário final.
É importante ainda destacar que o ODF é desenvolvido por pessoas e empresas do mundo todo, como IBM, Sun, Microsoft , Google e Novell. Com tantas empresas e especialistas independentes envolvidos em seu desenvolvimento, o futuro do ODF não depende do futuro de empresa alguma, e as funcionalidades do padrão não são projetadas para atender aos interesses da empresa A ou B. Tudo é feito em prol da coletividade.
O ODF é ainda uma norma ISO, a norma ISO/IEC 26.300 e foi adotado como norma Brasileira no ano passado, a NBR ISO/IEC 26.300:2008.
Portal - Quais foram as resistências encontradas até o momento?
Jomar: A migração para o ODF é muito mais uma questão cultural do que técnica. Todo ser humano é resistente a mudanças e isso sempre deve ser levado em consideração em qualquer processo de mudança.
Mesmo assim não são raros os casos de usuários que só percebem que "migraram para o ODF" meses após a migração, pois na maioria dos casos a utilização de ODF passa pela troca da suíte de escritórios e essa o usuário vê e quase sempre resiste.
Tenho notado que quanto mais as pessoas enfrentam problemas de interoperabilidade com a troca de documentos eletrônicos, mais se interessam pelo ODF. Quando elas entendem também que o armazenamento de informações em formatos proprietários e, portanto, fechados, de conhecimento apenas da empresa que os criou é extremamente perigoso, qualquer resistência contra a utilização do ODF acaba.
Portal - Empresas de padrões fechados não estariam atuando contra seus próprios interesses ao adotar o padrão aberto em seus produtos?
Jomar - Na atual realidade de mercado, não. Não dá mais para negar que o ODF resolve um problema gigantesco dos usuários e, portanto, dos consumidores. Se as empresas de padrões fechados insistirem em não suportar o ODF, darão aos usuários uma única saída: deixar de consumir seus produtos.
Com a atual crise internacional, que reduz o budget das empresas para aquisição de software, e com a crescente oferta de suítes de escritório em Software Livre com excelente qualidade, estas empresas se viram em uma encruzilhada onde a decisão é quero ou não continuar no mercado de suítes de escritório" e não mais "vou ou não suportar o ODF\u201d.
No passado recente isso já foi muito diferente, mas fico contente em ver como conseguimos chegar onde estamos em tão pouco tempo.
Portal - O Banco do Brasil é um dos maiores usuários corporativos de software livre do mundo. Na sua opinião, qual o significado de iniciativas como a do BB?
Jomar - Já faz tempo que software livre deixou de ser uma questão ideológica e passou a ser uma opção de tecnologia e soberania. O tempo em que um banco como o BB dependia quase integralmente de empresas de tecnologia para poder operar já acabou e acho esta autonomia fundamental para o banco.
Na década passada, vimos as rédeas dos departamentos de TI de empresas no mundo todo saírem das mãos dos gestores e ir parar nas mãos dos fornecedores. Estes ditavam quando e como os produtos seriam atualizados, qual seria a qualidade do suporte técnico, quais funcionalidades os produtos disponibilizariam e principalmente quanto iria custar o pacote todo. Esta situação infelizmente transformou a maioria dos profissionais de TI em especificadores de produtos e não de requisitos técnicos e soluções, tirando o que considero de "mais charmoso" em nossas profissões.
O software livre colocou tudo isso de volta nos eixos. Nós tivemos, e ainda temos, que reaprender a especificar nossas necessidades e os gestores de TI agora podem novamente escolher quais produtos utilizar e com quais fornecedores trabalhar. Existe ainda a possibilidade de desenvolvimento ou customização dos softwares serem feitas localmente, o que é extremamente saudável para trazer e disseminar tecnologia de ponta no Brasil.
Olhando pelo lado dos negócios, software livre é serviço e não produto. Sendo assim, os negócios em software livre são intensivos em mão de obra qualificada, gerando mais empregos e elevando o nível técnico de nossos profissionais.
Graças a Deus os dias em que nossos suados reais se esvaíam como "royalties" para o exterior estão chegando ao fim, e saber que governo e empresas sob seu controle estão sendo o fiel da balança para que isso ocorra é muito gratificante, afinal de contas é o nosso dinheiro em jogo.
Portal - Como você enxerga o futuro do software livre e o do software proprietário? Você acredita que as empresas irão utilizar cada vez mais softwares livres?
Jomar - O novo modelo de comercialização de software como serviço e tecnologias associadas, como cloud computing e outras novas buzzwords associadas, acabará por resolver esta disputa entre livre x proprietário de forma muito simples.
Vai se dar melhor a empresa que oferecer os melhores serviços pelos menores custos, com a flexibilidade e agilidade necessária para reajustar seus sistemas de acordo com as necessidades de seus clientes. Eu só consigo ver alguém trabalhar assim usando software livre, principalmente por que o software deixa de ser fim e passa a ser meio. Em outras palavras, seu cliente não vai mais esperar seis meses para implementar aquela funcionalidade, ou ainda manter aquela equipe de três mil desenvolvedores. Um exemplo do que estou falando é o próprio Google, que utiliza software livre e padrões abertos em quase tudo o que faz, e nós usuários vemos muito pouco ou quase nada disso tudo, pois o que nos interessa são os serviços que ele nos oferece, não é?
Outra coisa importante é que as pessoas comuns, como usuários domésticos e funcionários de empresas de outras áreas, estão cada vez mais tendo contato com Linux e, em sua maioria, adorando o que estão vendo: livre de vírus, mais seguro, estável, e cá entre nós, tem um charme danado.
Em resumo, com a aceleração de vendas de netbooks e seus equivalentes em desktop, com o deslocamento do processamento e armazenamento das pontas (usuários) para o centro (data center), é inevitável que o Software Livre seja utilizado em larga escala. Aliás, este é mais um ciclo de expansão e contração, com deslocamento do processamento na indústria de TI, mas desta vez os anabolizantes são gigantescos: Internet, software livre e padrões abertos.
Portal - Como anda o processo de adoção e entendimento do ODF em outros países? Quais países estão em níveis avançados e como poderíamos classificar o Brasil?
Jomar - Atualmente já são 17 os países que adotaram ou recomendam a utilização do ODF e, entre eles, o Brasil é destaque absoluto. Nossos números são impressionantes, como por exemplo, o total de computadores envolvidos com a assinatura do Protocolo de Brasília, em que entidades governamentais se comprometem a adotar ODF. Este número chega a meio milhão e está crescendo bem rápido.
Até pouco tempo atrás, o ODF era adotado e debatido com maior frequência em países em desenvolvimento, mas nos últimos meses este panorama mudou drasticamente com a adoção do ODF pelo governo da Alemanha e Reino Unido. Na América do Sul, já temos Brasil, Uruguai e Venezuela e as discussões sobre adoção estão indo bem rápido em mais quatro países.
Portal - Quais os riscos as corporações estariam expostas ao postergar a decisão de adotar ou não padrões abertos para documentos?
Jomar - Segundo os especialistas em gestão da informação, o número de documentos eletrônicos gerados pela humanidade dobra a cada cinco anos \u2013 um crescimento exponencial. Não acredito que exista hoje a opção de "não adotar" e sim quando, o que representa um risco gigantesco. Quanto mais se demora, maior será o legado construído, tal como o excesso de carbono que temos na atmosfera.
Os custos pela falta de interoperabilidade estão crescendo cada vez mais e já não dá para fazer de conta que eles não existem e que isso não é um grande problema. Quem já recebeu documentos armazenados pela última versão de uma famosa suíte de escritório proprietária sabe bem do que estou falando... e não adianta tirar o "x" do final da extensão do arquivo que não resolve. Estes custos não são fáceis de mensurar, mas imaginem quanto custa o tempo de cada pessoa que precisa converter um determinado documento para outro formato e enviar novamente para seu interlocutor! Às vezes, este processo precisa ser refeito várias vezes.
Portal - E o impacto que isso tem nas relações entre clientes e fornecedores ?
Jomar - O ODF é uma opção que te permite escolher. Não ter liberdade de escolha é ficar aprisionado na mão de um único fornecedor, é para mim, o grande prejuízo e o maior de todos os riscos.
* Fonte: Portal de Comunicação da Vice-Presidência de Tecnologia do BB